sábado, 7 de fevereiro de 2009

O QUE VEM POR AÍ
Paulo da Mata-Machado Jr.


Estou plenamente convencido de que o inventor da burguesia foi um tipógrafo. Antes do prelo mecânico, toda informação, manuscrita pacientemente (e muito devagar) em uma única e preciosa via, era propriedade de nobres ou da igreja, e assim aferrolhada em locais inacessíveis ao homem comum. Com a folha impressa, ficou cada vez mais difícil esconder da população em geral aquela gama de conhecimento, antes só disponível aos “happy few”. É exemplo conhecido que estes últimos de há muito já planejavam o que fazer com as terras que certamente existiam do outro lado do globo terrestre, enquanto que a massa, a grande maioria da humanidade, piamente (o advérbio é proposital, uma vez que era dogma religioso) cria no tabuleiro com suas bordas finitas, onde se precipitavam as naus e os loucos que se atreviam a navegá-las.
A divulgação e mesmo a banalização do conhecimento através da imprensa, trouxe um efeito secundário: começaram a surgir os equívocos, as ambigüidades, os erros. O exemplo mais conspícuo disso talvez seja o engano (e a leviandade) que levou um grupo de pessoas da congregação denominada Gimnasium Vosgianum, existente na corte de um duque francês chamado “Le Bon Roi René du Lorraine” a imprimir as cartas de Américo Vespucci, como se encaminhadas ao Rei René. Anexo havia um mapa onde havia uma grande massa de terra (e que na verdade era o Brasil) que foi nominada “América”, pois não tinha sido Américo seu descobridor? A informação engatinhava e na tal corte nunca souberam da existência de um sujeito chamado Cristóforo Colombo! E esse “pequeno erro” (aliás protagonizado por um tipógrafo chamado Gauthier Lund, que era também secretário do duque) acabou dando origem ao nome do nosso continente...
De qualquer maneira, o livro impresso, a folha informativa, o boletim, foram se difundindo rapidamente pela Europa. E com tal força que logo a população em geral pode usufruir, mais ou menos livremente, do conhecimento. Sem a imprensa e seu miraculoso poder disseminador, Martinho Lutero provavelmente teria seu manuscrito com suas teses divulgado apenas entre os fiéis da Igreja de Todos os Santos, do Castelo de Wittenberg. E o efeito devastador delas teria ficado circunscrito ao âmbito paroquial.
O burgo e seu habitante, o burguês, floresceram como nunca desde então. E como eu comecei dizendo, o mais importante “alimento” para tal crescimento foi fornecido pelo tipógrafo. A ~milenar organização social do homem fundada principalmente na posse da terra e na força física que ele dispusesse para defender essa posse e aumentá-la, ia ser radicalmente alterada com o aparecimento e multiplicação dessa nova classe social.
A burguesia e a divulgação do conhecimento caminharam juntos desde então e até agora. E essa parceria univitelina só fez agigantar-se, abarcando todo o planeta e já se encaminhando agora, pelas sondas espaciais “Voyager”, para outros sistemas solares. Tal sistema de transmissão de dados e informações através da impressão (depois por meio de ondas sonoras e de imagens), que chamamos imprensa, tornou-se quase nossa segunda natureza. Porém...
Porém está para acabar. O que vem por aí e vai revolucionar (outra vez) a comunicação entre seres humanos e todo o “melting pot” chama-se Internet. A rede mundial de transmissão de dados em geral, informações (e muita besteira, como é próprio do homem) somadas às demais ferramentas de interatividade não completou ainda seus vinte anos e... vejam se conseguem passar um dia sem ela! E não falo da chateação de não passar/receber mensagens, bisbilhotar, navegar aleatoriamente, etc.: sem a net os bancos fecham, os supermercados cerram as portas, os aviões não levantam vôo, os trens e navios param. Quase tudo o que fazemos hoje envolve diretamente algum uso da rede. Nada, na história da humanidade, se tornou assim tão fundamentalmente imprescindível, em tão curto espaço de tempo.
A principal virtude dessa nova forma de comunicação é sua facilidade em auto-disciplinar-se, no mesmo passo da dificuldade em ser “regulamentada” através de leis, portarias, e quaisquer outros tipos de normatização. No recesso do lar todos somos os únicos responsáveis por, através do velho botão liga/desliga, exercer tal controle. Isso, contra a opinião dos muito ignorantes, inseguros, paranóicos e demais desajustados sociais, é sua melhor característica.
Como toda novidade, é impossível para nós, contemporâneos desses primeiros passos, avaliarmos objetivamente as dimensões do fenômeno que estamos vivenciando. Até mesmo porque, comparando com o prelo de Gutemberg, nossa Internet atual, em termos de velocidade, uso, accessórios, operacionalidade, etc, ainda é tão tosca quanto aqueles tipos de madeira esculpida.
O que vem por aí eu não posso saber. Porém com relação ao modo de vida urbano/burguês que usamos por todos esses séculos, desconfio, como diz a letra da música, que o nosso “caso” está na hora de acabar. A falência de um após outro dos grandes mitos da imprensa escrita, em todo o mundo, mostra que isso é verdade: “há um adeus em cada gesto, em cada olhar” .
São infinitas as hipóteses e as vertentes pelas quais podemos seguir com essa nova “invenção”. Até mesmo a mais improvável delas, que é a de nada muito importante acontecer ao nosso modo de vida. Não é meu assunto, porém, cabendo a sociólogos e outros discutirem o tema. Isto é uma crônica, não um ensaio erudito a respeito do “para onde vamos e como será, no caso de...” Por enquanto, achar o atual caminho fascinante, tem me bastado.
Brasília, sábado, 7 de fevereiro de 2009

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